A Red Bull tem um problema gigantesco. Desde o Grande Prémio da Grã-Bretanha do ano passado, Max Verstappen conquistou um campeonato do mundo, várias vitórias, muitos mais pódios e 353 pontos. Durante o mesmo período, o segundo monolugar marcou… 40. É um desastre.
Além de Max nunca ter um escudeiro, isto significa também que a equipa luta, na prática, pelo campeonato de construtores com uma mão atada atrás das costas. Como um gladiador que entra em combate com uma moca numa mão e um cotonete húmido na outra.
E nem sequer é um problema recente. Desde que Daniel Ricciardo saiu da equipa em 2018, Verstappen fez uma série de jovens promissores parecerem perfeitamente banais. Pierre Gasly, Alex Albon, Liam Lawson e, agora, Yuki Tsunoda foram todos atropelados pelo comboio de mercadorias Red Bull x Verstappen.
Até Sergio Perez, contratado vindo de fora - vencedor de corridas e especialista na gestão de pneus, que passou grande parte da carreira a arrancar pódios com carros do meio do pelotão que não os mereciam - foi esmagado sem apelo. Não admira que toda a gente ache que aquele lugar está amaldiçoado.
O programa de jovens pilotos da Red Bull falhou?
Terá falhado o programa de jovens pilotos da Red Bull? Laurent Mekies, diretor de equipa da estrutura júnior Racing Bulls, não acredita que sim: “Olho para as corridas de F2 e F3 e há pilotos Red Bull a vencer todos os fins de semana”, afirma. “Olho para o Yuki, agora na Fórmula 1 com a Red Bull Racing. Olho para o Isack [Hadjar], que é a nova sensação.
“Não se encontra um Max Verstappen todos os anos. Antes de Max, Sebastian ganhou quatro títulos. Max ganhou quatro títulos. Entretanto, há uma linha de pilotos e Daniel [Ricciardo] no meio dela. Não tenho a certeza de que se pudesse ter feito muito mais, percebes?
“Por isso, acho que o programa funciona bem. Coloco a questão desta forma: quando a Red Bull Racing precisa de um piloto, se conseguir recorrer ao programa para responder a essa necessidade, então o programa está a funcionar. Se não conseguir recorrer ao programa, então provavelmente temos de fazer um trabalho melhor.”
Tem razão. Albon encontrou uma nova casa na Williams e a sua reputação disparou; Gasly venceu o Grande Prémio de Itália depois de ter sido descartado pela Red Bull e é hoje um piloto consistente na Alpine; Carlos Sainz - o primeiro colega de equipa de Verstappen, não esqueçamos - foi considerado merecedor da Ferrari e ganhou quatro grandes prémios de vermelho. É algo inexplicável, ainda que apenas moderadamente, que a Red Bull não tenha tentado recuperá-lo para 2025.
Lawson é o exemplo mais recente de alguém lançado às feras muito antes de estar preparado. Em vez de ter uma ou quatro épocas para aprender o ofício, o neozelandês chegou ao topo após apenas 11 corridas de preparação, repartidas por duas campanhas distintas. O resultado? A sua primeira e a sua última corrida pela Red Bull ficaram separadas por somente sete dias.
O seu registo foi o seguinte: qualificou-se em P18, despistou-se; qualificou-se em último, P14 na corrida sprint; qualificou-se em último, P12. E tudo terminou depois com uma chamada telefónica, presumivelmente bastante embaraçosa.
Mekies não considera isso um êxito, pois não? “Não, isto não é sucesso”, concorda. “Acho que nenhum de nós antecipou as dificuldades que Liam iria enfrentar ali.”
Contudo, defende que isso não exclui a possibilidade de Liam vir a afirmar-se no futuro, e entende que o facto de a RB ter dois pilotos no plantel que pelo menos mereciam uma oportunidade deve contar a favor da equipa.
Mais uma vez, tem razão. Depois de ter precisado de tempo para recuperar de um capítulo tão duro, Lawson alcançou no passado fim de semana, na Áustria, o melhor resultado da carreira, P6. E, com ele e o extremamente simpático Hadjar a somarem bons pontos ultimamente, a satélite VCARB está exatamente onde a equipa-mãe a quer: na zona mais favorável da luta a meio do pelotão.
Porque é que ninguém se aproxima de Verstappen na Red Bull?
Mas regressemos à pergunta inicial: porque é que a Red Bull não consegue encontrar um piloto capaz de chegar minimamente perto de Verstappen? Quando tantos pilotos rápidos acabam por parecer amadores de segunda categoria na Red Bull, o culpado só pode ser… o carro.
Os monolugares da Red Bull costumam ter uma forte tendência para sobrevirar, o que torna a traseira extremamente sensível. Verstappen possui uma capacidade de génio para lidar com este tipo de afinação e para a tornar rápida. Pode muito bem ser o único piloto do mundo capaz de o fazer.
Mas, se é preciso um talento de uma geração para fazer o carro funcionar… mais cedo ou mais tarde isso vai ficar exposto, não é?
A Red Bull já está, possivelmente, a pagar o preço: perdeu Adrian Newey no ano passado e o seu ritmo caiu de forma drástica desde então. No próximo ano construirá pela primeira vez o seu próprio motor, com alguma ajuda da Ford, e basta pesquisar “Honda Alonso GP2” no YouTube para perceber quão incapacitante pode ser uma unidade motriz defeituosa.
E, sendo uma possibilidade real que Max Verstappen saia para a Mercedes, a Red Bull pode - repetimos, pode - acabar genuinamente perto do fundo do pelotão no próximo ano. Seria uma queda brutal depois da sua época quase invicta de 2023.
A Red Bull procura talento desde o karting
A equipa precisa de alguns génios de reserva, e depressa. Peter Bayer, CEO da Racing Bulls, tem uma ideia sobre onde procurar. “Uma das coisas que estamos atualmente a discutir - e pela qual sei que Helmut Marko é, em última análise, responsável - é se temos de expandir-nos para o mundo do karting, algo que, até agora, a Red Bull não fez de forma estratégica.
“O que se vê agora, quando se vai a uma pista de karting, é um representante da Williams, um representante da Alpine, a Mercedes tem um representante, e estão a contratar miúdos aos 10, 11, 12 anos. Penso que a Ferrari também está agora a entrar nesse mundo.
“É algo que temos de analisar. Caso contrário, a F4 será o vosso ponto de entrada e poderão chegar demasiado tarde. Porque deixam escapar um talento ou têm de contratar um talento de outra estrutura.”
Fica a lição, rapazes e raparigas: encontrem o kart mais sobrevirador a que conseguirem deitar as mãos e não voltem para o lanche até conseguirem fazê-lo deslizar mesmo a dormir. Depois, liguem para a Racing Bulls.






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