Quem é o melhor: Senna, Hamilton, Schumacher ou Max Verstappen, recentemente coroado tetracampeão do mundo? E porque estamos tão obcecados com estas comparações? Será sequer possível fazê-las? É como comparar os Beatles com Taylor Swift: há argumentos convincentes para ambos, mas qual é o propósito?
A verdade é que estas conversas de corredor já duram há anos e são um passatempo inesgotável para os adeptos de Fórmula 1 de todo o mundo. A discussão alimenta-se de paixão, nostalgia e opinião. Mas, ao contrário da simples subjetividade do gosto musical, na F1 temos dados concretos à disposição, ainda que obtidos com máquinas diferentes. Noutros tempos, os pilotos lutavam com armadilhas mortais em circuitos ladeados por fardos de palha. Hoje contam com o dispositivo halo, treino interminável em simulador e montanhas de dados digitais para analisar.
Gordon Murray e as diferentes eras da Fórmula 1
Comecei a pensar no assunto depois dos prémios Top Gear, quando tive o privilégio de entrevistar Gordon Murray em palco. É com agrado que digo que mostrou todo o carisma e personalidade pelos quais é conhecido e admirado. Quando lhe perguntei o que achava da F1 moderna, respondeu, com um sorriso irónico, que estava simplesmente satisfeito por ter trabalhado na modalidade na época em que o fez. Elogiou o talento que era preciso para correr no Mónaco antigamente, uma vez que eram necessárias “3.000 mudanças de velocidade numa hora e três quartos”.
Hoje, disse ele, claramente a brincar, basta “apontar o carro para a curva, na verdade”. Ainda assim, reconheceu o mérito da atual geração de pilotos: no seu tempo, explicou, entre a frente e o fundo da grelha havia uma diferença de seis ou sete segundos, enquanto agora os separam apenas algumas décimas.
Os números dos pilotos de Fórmula 1
O cronómetro nunca mente e oferece-nos um verdadeiro tesouro de estatísticas. Vitórias, pole positions, voltas mais rápidas ou velocidade média na Eau Rouge durante um treino à chuva: há um número para tudo e para cada piloto. Hamilton tem mais vitórias. Schumacher tinha aquela aura de invencibilidade. Fangio construiu um legado assente numa impressionante taxa de vitórias de 46%. As estatísticas reforçam os argumentos a favor de quem consideramos o melhor, mas o ingrediente essencial é o contexto. Fangio correu numa época de grelhas mais pequenas e abandonos frequentes. Em contrapartida, o recorde de 105 vitórias de Hamilton, até agora, foi alcançado numa era de fiabilidade à prova de tudo.
A nostalgia também pesa muito nestas discussões. Tal como o nosso amigo Gordon, quem não gosta de falar com entusiasmo dos bons velhos tempos? Para os adeptos mais velhos, comparar lendas da F1 é uma forma de reviver os momentos mais emblemáticos da modalidade e de recordar aos miúdos de hoje que não viveram nada assim.
Claro que não há uma resposta definitiva. Estes debates nunca terminam com um aperto de mão ou um entendimento mútuo; dão antes origem a incontáveis imagens humorísticas, insultos e provocações sem fim. Eu escolho Hamilton, por ter tido a sorte de assistir ao vivo a muitas das suas vitórias, mas com uma ressalva: posso mudar de opinião se Max somar mais exibições como a do Brasil em 2024. Discordam? Já calculava. Vemo-nos na próxima conversa de corredor.






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