Jejuar, ou abster-se de comer, é uma prática humana ancestral. Embora seja frequentemente associado a costumes culturais ou religiosos, muitas pessoas em todo o mundo também fazem jejum na esperança de melhorar a saúde.
Muitas recorrem ao chamado jejum intermitente, um termo abrangente para diferentes métodos que alternam períodos de alimentação e de jejum. A investigação indica que pode ser seguro para muitas pessoas e proporcionar benefícios para a saúde, embora existam ressalvas importantes.
O jejum intermitente pode representar riscos para determinadas pessoas, alertam os especialistas. Apesar de estar associado a benefícios como a perda de peso e a redução da inflamação, são necessários mais estudos para testar muitas das suas alegações mais populares - e para revelar efeitos secundários indesejados.
Um novo estudo, por exemplo, associa o jejum intermitente a uma regeneração mais lenta do pelo em ratinhos. Com base num pequeno ensaio clínico também realizado pelos autores, poderá verificar-se um efeito semelhante nos seres humanos.
Esta notícia não deve ofuscar os potenciais benefícios do jejum intermitente, afirma o autor sénior Bing Zhang, biólogo de células estaminais da Universidade de Westlake, em Zhejiang, na China. No entanto, acrescenta, recorda-nos o muito que ainda desconhecemos e que quaisquer vantagens para a saúde podem vir acompanhadas de efeitos secundários surpreendentes.
"Não queremos assustar as pessoas e levá-las a deixar de praticar jejum intermitente, porque este está associado a muitos efeitos benéficos. É apenas importante ter consciência de que pode ter alguns efeitos não intencionais", diz Zhang.
Jejum intermitente e regeneração do pelo
Estudos anteriores sugerem que o jejum intermitente pode aumentar a resistência ao stress de algumas células estaminais, explicam Zhang e os seus colegas, incluindo as associadas ao sangue, ao intestino e ao tecido muscular. Porém, não é claro de que forma esta prática afecta tecidos mais periféricos, como a pele ou o pelo.
Os investigadores pensaram que o jejum poderia igualmente favorecer a regeneração desses tecidos e decidiram averiguar. Colocaram ratinhos rapados em um de dois grupos submetidos a jejum intermitente, ou num grupo de controlo com acesso ilimitado a alimento, e acompanharam o crescimento do pelo em cada grupo.
Alguns ratinhos seguiram um regime de alimentação com horário limitado, com acesso a comida durante 8 horas por dia e 16 horas de jejum. Outros receberam alimentação em dias alternados, alternando entre dias com comida e dias de jejum a cada 24 horas.
Ambos os planos de jejum não só ficaram aquém das expectativas como, para surpresa dos investigadores, a regeneração do pelo foi mais lenta nos ratinhos em jejum.
Segundo o estudo, os ratinhos do grupo de controlo, com alimentação sem restrições, recuperaram a maior parte do pelo em 30 dias. Já os dois grupos de ratinhos em jejum continuavam a apresentar apenas crescimento parcial ao fim de 96 dias.
Porquê? Ao aprofundarem a análise, os cientistas descobriram que as células estaminais dos folículos pilosos (HFSCs) não conseguiam lidar com o desequilíbrio entre radicais livres e antioxidantes provocado pela alternância entre glicose e gordura.
As HFSCs alternam naturalmente entre fases activas e dormentes, sendo que o crescimento de novo pelo só é possível quando estas células estaminais regressam ao estado activo.
No grupo de controlo, as HFSCs voltaram à actividade cerca de 20 dias após os ratinhos terem sido rapados, concluiu o estudo, e mantiveram-se activas até o pelo voltar a crescer.
Nos ratinhos em jejum, contudo, as HFSCs sofreram apoptose - morte celular programada - durante os períodos prolongados sem alimento.
Os investigadores atribuem este fenómeno a um aumento de ácidos gordos livres em redor dos folículos pilosos, que provocou uma acumulação de espécies reactivas de oxigénio nas células estaminais.
Testes in vitro revelaram um efeito semelhante nas HFSCs humanas, que também sofreram apoptose em resposta à abundância de ácidos gordos livres.
"Durante o jejum, o tecido adiposo começa a libertar ácidos gordos livres, e esses ácidos gordos entram nas HFSCs que foram activadas recentemente, mas estas células estaminais não dispõem da maquinaria adequada para os utilizar", afirma Zhang.
Células estaminais, antioxidantes e crescimento do cabelo
Já a camada exterior das células da pele pareceu não ser afectada pelo jejum. Isto poderá dever-se à sua maior capacidade antioxidante, uma vez que as HFSCs também se revelaram menos vulneráveis à apoptose induzida pelo jejum quando os investigadores reforçaram geneticamente a sua capacidade antioxidante e aplicaram topicamente o antioxidante vitamina E.
No ensaio clínico, Zhang e os seus colegas recrutaram 49 jovens adultos saudáveis para avaliar de que modo o jejum intermitente poderia afectar o crescimento do cabelo.
As pessoas aleatoriamente atribuídas a uma dieta com horário limitado, com 18 horas de jejum diário, apresentaram de facto um crescimento de cabelo mais lento do que as do grupo de controlo. Ainda assim, trata-se de uma conclusão preliminar de um único ensaio pequeno. Serão necessários estudos mais longos e com amostras maiores para se perceber como o jejum afecta o crescimento do cabelo humano.
"A população humana é muito heterogénea, pelo que os efeitos podem ser diferentes de pessoa para pessoa. Os ratinhos também têm uma taxa metabólica muito elevada em comparação com os seres humanos, por isso o jejum e a mudança metabólica têm um efeito mais grave nas HFSCs dos ratinhos", diz Zhang.
"Observamos um efeito mais ligeiro nos seres humanos - continuam a existir células estaminais apoptóticas, mas muitas HFSCs sobrevivem", acrescenta. "Por isso, o cabelo continua a crescer; apenas cresce um pouco mais devagar do que o habitual."
Zhang afirma que os investigadores tencionam prosseguir este trabalho, estudando a reacção de outros tecidos ao jejum e compreendendo melhor os mecanismos envolvidos.
"Também queremos perceber como o jejum afecta a cicatrização de feridas na pele", afirma, "e identificar metabolitos que possam ajudar à sobrevivência das HFSCs e promover o crescimento do cabelo durante o jejum."
O estudo foi publicado na Cell.






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