No ano passado, George Russell colocou o seu Mercedes na pole position do Grande Prémio da Grã-Bretanha com uma volta cirurgicamente precisa de 1m25.819s em Silverstone. À semelhança de todas as poles que conquistou até hoje na carreira, houve naquela volta de Russell um toque de triunfo do azarão: talento e desempenho sob pressão a superarem as probabilidades. Probabilidades essas representadas, consoante a época, por conjuntos mais rápidos da McLaren, Red Bull e Ferrari.
Importa, contudo, salientar que Russell fez a sua volta de pole em Silverstone no sentido certo do circuito. Voltámos atrás para confirmar - todos o fizeram.
Uma das novidades menos faladas de F1 25 são os traçados invertidos. Silverstone é um dos três circuitos que podem agora ser percorridos no sentido oposto, a par de Zandvoort e do Red Bull Ring. Depois de tanto tempo a completar voltas no sentido habitual, estabelecido e aborrecido, a oportunidade de enfrentar o traçado ao contrário levou-nos a pensar: conseguiremos bater a volta de Russell se corrermos em sentido inverso?
Com esta ideia disparatada a ocupar-nos a cabeça, e a imagem mental de acenar a bancadas cheias de fãs patrióticos em delírio durante a volta de desaceleração a encher-nos o peito de orgulho, rumamos à pista. E a primeira dificuldade é esta: meu Deus, parece tudo tão errado.
Já foi suficientemente mau quando alteraram a localização da linha de partida e meta há alguns anos, mas isto é um nível inteiramente diferente de desorientação. Conduzir ao contrário num circuito tão histórico - o local onde nasceu a Fórmula 1 e onde todos os aspirantes britânicos a piloto de F1 passam incontáveis horas virtuais a fazer voltas rápidas em videojogos - é como seguir a alta velocidade no sentido contrário na M25. Esqueçam os tempos por sector: os nossos olhos não param de procurar os espelhos, à espera de ver a polícia a mandar-nos parar.
São precisas dez voltas apenas para afastar essa sensação e traçar os mais rudimentares mapas mentais dos pontos de travagem e de entrada em curva. E, escusado será dizer, até agora estamos consideravelmente mais lentos do que quando conduzimos Silverstone no sentido dos ponteiros do relógio.
Silverstone em sentido inverso revela os desníveis
Surge depois o segundo ajuste mental: a elevação. Silverstone não é propriamente conhecido pela sua topografia dramática, mas percorrer este espaço familiar no sentido contrário aos ponteiros do relógio parece expor muito mais variações de altitude do que aquelas que se sentem no sentido habitual.
Depois de ultrapassar as curvas lentas e nervosas em torno de Club e Vale, começa a subida - uma subida bem evidente - até Stowe, que pode ser feita ainda mais perto do acelerador a fundo, já que não transportamos tanta velocidade. E a elevação também não estabiliza na reta Hangar.
Continuamos a ganhar altitude ao chegar a Chapel-Becketts-Maggotts, um trio de curvas que se torna numa espécie de trava-línguas de competição quando é abordado ao contrário. Quem já fez muitas voltas rápidas em Silverstone sabe que é necessário retirar velocidade gradualmente em cada uma destas curvas, pois tornam-se sucessivamente mais apertadas. Ao fazê-las em sentido inverso e a subir, naturalmente, acontece precisamente o oposto.
Aqui, o objetivo passa por manter a velocidade máxima em Chapel e na entrada de Becketts, tirando apenas uma pequena fração de velocidade para atingir o vértice e preparar uma saída a fundo por Maggotts. A velocidade de saída daí acumula-se durante todo o caminho até Luffield.
F1 25 e o desafio técnico de Silverstone ao contrário
E isto conduz-nos ao terceiro obstáculo mental: Silverstone em sentido inverso pode ser o circuito mais técnico que existe. Após 30 voltas, das quais apenas cerca de 12 permaneceram realmente dentro dos limites de pista, continuamos muito longe do ritmo. A razão é que este traçado invertido parece acentuar ainda mais o desafio característico de Silverstone: pontos de entrada rigorosos em curvas de alta velocidade.
Muitas das suas curvas são feitas com um toque momentâneo no travão ou uma única redução de caixa. A estas velocidades, é preciso estar extremamente confiante, comprometido e preciso no ponto de entrada, porque a trajetória de saída pode variar imenso. Essa é uma das razões pelas quais não nos conseguimos aproximar dos nossos tempos habituais de volta rápida em Silverstone.
Russell provavelmente estaria com um ar bastante satisfeito se pudesse ver as nossas tentativas. A combinação de subir, em vez de descer, nas retas com a falta de precisão nas entradas rápidas está a prejudicar os nossos tempos por volta, e nem há muito que possamos fazer no menu de afinação. As exigências impostas ao carro são semelhantes às do traçado no sentido dos ponteiros do relógio, só que… maiores. Reduzimos um pouco a carga aerodinâmica e encontramos alguns décimos após mais cinco voltas.
Já passaram horas. O resultado do nosso trabalho? Um cof 1m28s. Apenas três segundos atrás da volta do Sr. Folha de Cálculo no ano passado. A culpa é das subidas. Uma olhadela ao tempo da tabela de classificação global revela que mais ninguém bateu a pole de 2024 em sentido inverso: à data da publicação, o melhor registo é 1.25.9. Portanto, talvez a nossa teoria tenha algum fundamento, afinal.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário