Cientistas e atletas receiam que episódios de calor extremo coincidam com as datas das competições olímpicas e paralímpicas, com consequências potencialmente fatais.
A última vez que Paris recebeu os Jogos Olímpicos foi há um século. Desde então, as temperaturas médias subiram 1,8 °C e registaram-se 50 ondas de calor entre 1947 e 2023, explica um novo relatório.
No verão de 2003, uma onda de calor mortal provocou mais de 14 000 mortes em França. Estes extremos são dez vezes mais prováveis devido às alterações climáticas, que elevaram em 70 por cento o risco de mortalidade relacionada com o calor no centro de Paris.
"O facto de os Jogos Olímpicos decorrerem em pleno verão significa que a ameaça de um período de calor devastador é muito real", afirma o relatório, produzido em conjunto pela Associação Britânica para o Desporto Sustentável e pelo grupo de defesa climática FrontRunners.
Calor extremo nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris
Os fisiologistas Mike Tipton e Jo Corbett, do Laboratório de Ambientes Extremos da Universidade de Portsmouth, em Inglaterra, alertam que os Jogos podem expor os atletas a condições capazes de prejudicar o desempenho e, no pior dos casos, de colocar as suas vidas em risco.
"Condições quentes e/ou húmidas tornam mais difícil libertar calor para o ambiente e regular a temperatura interna (central) do corpo", explicam.
"Isto compromete o desempenho físico, sobretudo quando a exposição é prolongada e são exigidos ritmos de trabalho elevados e continuados."
WBGT e os limites de segurança para os atletas
Um dos métodos mais utilizados para avaliar a forma como o corpo sente ambientes quentes chama-se temperatura de bolbo húmido e globo (WBGT).
A WBGT fornece uma leitura mais precisa das condições que um atleta enfrentará do que a temperatura do ar isoladamente. Além da humidade, medida com um termómetro cujo bolbo é coberto por uma mecha húmida, considera também o movimento do ar e o calor radiante, geralmente proveniente do sol.
Uma humidade mais elevada altera significativamente a capacidade do organismo para eliminar calor através da transpiração.
Um estudo publicado em 2022 concluiu que a WBGT máxima que jovens adultos saudáveis conseguem suportar antes de deixarem de conseguir regular a temperatura corporal ronda os 31 °C (88 °F). Este cenário ocorreria com uma temperatura do ar próxima dos 30 °C num dia de humidade muito elevada.
Níveis elevados de calor e humidade ambiente, hoje mais prováveis nos verões parisienses do que alguma vez foram, aumentam o risco de queimaduras solares, cãibras de calor, exaustão e até colapso devido a insolação.
Para reduzir a exposição dos atletas ao stress térmico, as autoridades desportivas estabelecem limites de WBGT para as provas, embora existam dúvidas sobre se esses limites são suficientemente rigorosos para proteger adequadamente os competidores num mundo em aquecimento.
No ténis, uma WBGT de 30,1 °C desencadeia uma "Política de Condições Meteorológicas Extremas", o que implica uma pausa de 10 minutos. Caso a WBGT atinja os 32,2 °C, os responsáveis pelo torneio podem interromper os jogos.
O triatlo será cancelado se o índice WBGT ultrapassar os 32,2 °C. Já o hóquei não tem um limite específico de WBGT; em vez disso, a temperatura do ar tem de chegar, pelo menos, aos 35 °C para que sejam acionadas medidas de segurança.
Um estudo de 2023 observou que o hóquei foi um dos desportos de elevada resistência atlética afetados pelo calor durante os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.
"Durante os Jogos, pelo menos um atleta de hóquei sofreu uma insolação, enquanto outros três relataram problemas de saúde relacionados com o calor", refere o novo relatório.
"Tendo isto em conta, é particularmente preocupante que - apesar da ameaça de ondas de calor durante os Jogos Olímpicos de Paris - a Federação Internacional de Hóquei (FIH) apenas permita recorrer a suplentes dos plantéis de 16 pessoas."
O jogador de hóquei Hugo Inglis participará nos Jogos Olímpicos pela quarta vez em Paris neste verão e conhece diretamente os efeitos do stress térmico. A sua equipa sofreu três roturas dos isquiotibiais nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, que, na sua perspetiva, resultaram dos banhos de gelo antes dos jogos, usados para ajudar os jogadores a aguentar condições sufocantes.
Inglis teme que muitos atletas estejam "demasiado receosos de se pronunciar sobre terem de competir em condições tão desgastantes, por preocupação com a forma como poderão ser vistos".
O relatório pede aos organismos dirigentes que revejam a calendarização das provas para evitar extremos de calor, melhorem os protocolos de segurança, reavaliem os patrocínios de combustíveis fósseis e deem aos atletas condições para se manifestarem sobre a forma como as alterações climáticas estão a afetar o seu desporto.
O relatório completo, intitulado "Anéis de Fogo: Riscos de Calor nos Jogos Olímpicos de Paris 2024", está disponível aqui.






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