O Nürburgring é um cliché, não é? É um lugar extraordinário, mas foi completamente apropriado pelos departamentos de marketing e pelos YouTubers determinados a exibir as suas capacidades insanas, mesmo que isso implique conduzir como um autêntico idiota.
A terra prometida tornou-se algo parecido com um pântano e há até uma teoria, bastante difundida, de que está a estragar a dinâmica dos automóveis desportivos: os fabricantes perseguem tempos por volta que soam impressionantes, mas são totalmente irrelevantes no mundo real. Na prática, os carros ficam mais rígidos, privilegiam níveis cada vez maiores de aderência e eficiência aerodinâmica, mas esquecem-se de que a diversão em estrada é inversamente proporcional à aptidão para pista.
Ainda assim, convém questionar as ideias feitas, sobretudo quando essa percepção vem de um grupo de desconhecidos na Internet. Por isso, para conhecer o Nürburgring em 2025, participei recentemente num dia de pista organizado pela Destination Nürburgring, uma entidade sediada no Reino Unido.
A chegada ao Nürburgring
O início não foi auspicioso. Cheguei ao circuito na noite anterior e a zona envolvente, antes bastante tranquila, tinha-se transformado num verdadeiro jardim zoológico. Havia observadores de supercarros com câmaras por todo o lado. Carros mal modificados, com um aspecto mais de postura do que de Schwedenkreuz, estavam estacionados à balda na artéria principal junto ao «boulevard» carregado de marcas. No conjunto, parecia que eu tinha entrado num encontro automóvel dos anos 1990, em vez de numa peregrinação para verdadeiros entusiastas.
No entanto, as cerca de 24 horas seguintes inverteram por completo essa impressão. O dia de pista foi bem organizado e reuniu desde estreantes fascinados até pessoas com um vício pelo ’Ring de custo devastador. Conhece todos aqueles Porsche GT3 RS absurdamente caros, famosos por serem revendidos ou mantidos como relíquias? Acontece que a maioria está no Ring. E partilhavam alegremente o tempo em pista com MX-5, uma série de BMW M3 com motor V8, um Dodge Viper, dois Noble M400 e muitos compactos desportivos.
Havia influenciadores digitais. Houve acidentes. Porém, acima de tudo, sentia-se uma paixão profundamente partilhada por um lugar que provavelmente não deveria existir neste nosso mundo avesso ao risco, bem como a compreensão tácita de que não é possível dominar este circuito. Os acidentes são inevitáveis, mas essa componente de risco reforça a experiência e é assumida de olhos bem abertos.
Sir Chris Hoy descobre a Nordschleife
E a pista propriamente dita? As palavras não fazem justiça ao lugar. Uma das razões para a minha ida foi acompanhar Sir Chris Hoy. Toda a gente sabe que é uma lenda, mas nem todos reconhecem o seu gosto por automóveis. Chris já competiu em Le Mans, percorre configuradores e anúncios classificados como qualquer um de nós e, de forma francamente absurda, nunca tinha estado no ’Ring. Tratámos de corrigir isso.
“Já me tinham falado tantas vezes deste lugar”, disse-me depois de algumas horas a descobrir a Nordschleife. “E eu limitava-me a revirar os olhos. Não conseguia acreditar que pudesse ser assim tão bom. Mas é melhor. Melhor até do que diziam. Não acredito que tenha esperado tanto tempo. Que idiota.”
Apesar dos clichés e dos «deuses da condução» na Internet, que mostram exactamente como não se deve comportar, o ’Ring é especial. Como Sir Chris descobriu, há dois tipos de pessoas no mundo: as que já foram ao Nürburgring e as que ainda não foram. Garanta que está do lado certo dessa divisão. É o maior espectáculo do mundo.






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