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A história da Peugeot no Dakar: de 1987 a 2018

Carro branco Peugeot Dakar PGT exibido em salão, pneus off-road e capacete ao lado.
Neste artigo
  1. 1987: chegar, ver e vencer
  2. 1988: Agarrem esse ladrão!
  3. 1989: Uma questão de sorte
  4. 1990: A despedida da Peugeot
  5. 2015: medir a temperatura
  6. 2016: a lição foi aprendida
  7. 2017: Um passeio no deserto
  8. 2018: a última volta, rapazes

Depois dos camiões do Dakar, é a vez dos carros do Dakar. A proposta passa por viajar até ao distante ano de 1987, uma altura em que muitos de nós ainda nem tinham nascido.

No meu caso, não. Em 1987 já tinha 1 ano. Já andava pelos meus próprios meios, engolia pilhas AAA (aconteceu uma vez) e proferia vocábulos tão elaborados como “dada”, “piupiu”, “gugu” e “diferencial autoblocante”.

O propósito desta viagem temporal? Conhecer a história da Peugeot no Dakar.

Até porque este é o derradeiro ano (NDR: à data de publicação deste artigo) em que a Peugeot disputa o Dakar enquanto equipa oficial - há quem diga que a razão passa pelo regresso às 24 Horas de Le Mans. Eis mais uma excelente justificação para esta incursão de 31 anos. Talvez compense os 10 minutos de leitura. Talvez…

1987: chegar, ver e vencer

A Peugeot não tinha, propriamente, a intenção de competir no Dakar em 1987. Aconteceu simplesmente. Como sabem, o Grupo B terminou em 1986 - um tema que já abordámos. De repente, a marca francesa viu-se com os Peugeot 205T16 encostados na “garagem”, sem destino definido.

Foi então que Jean Todt, atual presidente da FIA, fundador e durante muitos anos líder da Peugeot Talbot Sport, teve a ideia de inscrever os 205T16 no Dakar. Uma excelente decisão.

Mal comparada, a estreia da Peugeot no Dakar foi como o meu nascimento… não foi planeado. Destes dois eventos, apenas um correu bem. Conseguem adivinhar qual foi?

Ari Vatanen, profundo conhecedor do Peugeot 205T16, era a grande figura da Peugeot Talbot Sport. Sobre os seus ombros recaía a responsabilidade de representar a marca francesa no Dakar. E o início não poderia ter sido mais desastroso. Ainda no prólogo - uma etapa “a feijões”, destinada a estabelecer a ordem de partida - Ari Vatanen sofreu um acidente.

Como resultado desta estreia triunfal, o Peugeot de Vatanen iniciou a 1.ª etapa do Dakar num extraordinário 274.º lugar da classificação geral.

Ainda assim, na Peugeot ninguém baixou os braços - e o Sr. Todt também não o permitiria. Apesar do arranque espetacular, mas no mau sentido, a estrutura da Peugeot Talbot Sport, formada por profissionais experientes vindos do Mundial de Ralis, adaptou-se depressa ao ritmo da mítica corrida africana.

Quando o Dakar chegou a África, Ari Vatanen já seguia no encalço dos líderes. Após mais de 13 000 km de competição, junto ao oceano Atlântico, foi o Peugeot 205T16 a cortar a meta em Dakar na primeira posição. Objetivo alcançado. Chegar, capotar e vencer. Ou, em latim, “veni, capoti, vici”.

1988: Agarrem esse ladrão!

Pelo segundo ano seguido, a Peugeot entrou no Dakar a todo o gás. O Peugeot 405 T16, evolução do 205T16, venceu logo em França e nunca mais abandonou o comando da classificação. Até surgir um contratempo…

Jean Todt tinha preparado tudo, ou pelo menos tudo o que se pode preparar numa competição recheada de imprevistos. Ari Vatanen liderava tranquilamente o Dakar à 13.ª etapa (Bamako, Bali), quando o seu carro foi roubado durante a noite. Alguém achou que seria uma excelente ideia furtar um carro de competição e acreditar que conseguiria escapar. Um Peugeot, não é? Ninguém vai dar conta…

Naturalmente, não escapou: nem o ladrão, que deixou o 405 numa lixeira, nem Ari Vatanen. Quando as autoridades encontraram o automóvel, já era demasiado tarde. Vatanen foi desclassificado por não se apresentar a tempo na partida, e a vitória acabou nas mãos do seu aguadeiro, Juha Kankkunen, ao volante de um Peugeot 205T16 de assistência rápida.

1989: Uma questão de sorte

Em 1989, a Peugeot apresentou-se no Dakar com uma força ainda mais temível, composta por dois Peugeot 405 T16 Rally Raid ainda mais desenvolvidos. Com mais de 400 cv, aceleravam dos 0 aos 200 km/h em pouco mais de 10 s.

Ao volante estavam duas lendas do automobilismo: o incontornável Ari Vatanen e… Jacky Ickx! Duas vezes vice-campeão mundial de Fórmula 1, seis vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans e vencedor do Dakar em 1983.

Escusado será dizer que a Mitsubishi, a única equipa capaz de desafiar a Peugeot, limitou-se a observar a luta a partir do lugar mais baixo do pódio. Na frente, Ari Vatanen e Jacky Ickx discutiam a vitória a mais de 200 km/h. Era uma luta sem reservas.

O equilíbrio entre os dois pilotos da Peugeot era tão grande que o Dakar de 1989 transformou-se num sprint.

Jean Todt cometeu um erro sério: colocou dois galos na mesma capoeira. Antes que esta guerra interna oferecesse a vitória de bandeja ao «caracol» da Mitsubishi, o diretor da equipa decidiu resolver a questão com o lançamento de uma moeda ao ar.

Vatanen teve a sorte do seu lado, escolheu a face correta da moeda e venceu o Dakar, apesar de ter capotado por duas vezes. Os dois pilotos concluíram a prova separados por menos de 4 minutos.

1990: A despedida da Peugeot

Em 1990, repetiu-se a história: a Peugeot voltou a vencer o Dakar com Ari Vatanen aos comandos. Um erro de navegação e um encontro inesperado com uma árvore quase arruinaram tudo, mas o Peugeot 405 T16 Grand Raid chegou ao fim da prova.

Foi o glorioso encerramento de uma era de domínio total da Peugeot. Uma era iniciada e terminada com sabor a vitória.

Também foi a última competição do lendário Peugeot 405 T16 Grand Raid, um automóvel que triunfou em todas as provas em que participou. Incluindo Pikes Peak, com Ari Vatanen ao volante - quem haveria de ser! Essa vitória em Pikes Peak deu origem a um dos mais sublimes filmes de ralis de sempre.

2015: medir a temperatura

Depois de uma ausência de 25 anos, a Peugeot Sport regressou ao Dakar. O mundo aplaudiu de pé. Na bagagem, a Peugeot Sport levava mais de duas décadas de experiência em campeonatos do mundo de Fórmula 1 - não correu bem -, ralis e resistência. Mesmo assim, o regresso revelou-se difícil.

Com o Peugeot 405 T16 Rally Raid remetido ao papel de “peça de museu”, cabia ao estreante Peugeot 2008 DKR defender as cores da marca. Contudo, o carro de apenas duas rodas motrizes, equipado com um motor Diesel V6 de 3.0 litros, ainda não tinha capacidade para cumprir essa missão.

Os treinadores de bancada riram-se… “ir para o Dakar num carro de tração traseira? Estúpidos!”.

Ao volante do 2008 DKR estava uma formação de sonho: Stéphane Peterhansel, Carlos Sainz e Cyril Despres. Nomes sonantes que, ainda assim, sofreram uma tareia monumental.

Para Carlos Sainz, o Dakar resumiu-se a cinco dias, sendo afastado após um acidente aparatoso. Stéphane Peterhansel - também chamado “Sr. Dakar” - acabou num dececionante 11.º lugar. Já Cyril Despres - vencedor do Dakar em duas rodas - não foi além do 34.º posto, devido a problemas mecânicos.

Não foi, de modo algum, o regresso que se esperava. Mas, como diz o povo, quem ri por último ri melhor. Ou, em francês, “celui qui rit le dernier rit mieux” - o Google Tradutor é uma maravilha.

2016: a lição foi aprendida

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A Peugeot recusou-se a acreditar neste ditado popular e, em 2016, manteve a «fé» no conceito original do 2008 DKR. A marca entendia que a fórmula estava correta; o problema era a execução, que tinha sido um desastre.

Por isso, a Peugeot apresentou-se no Dakar de 2016 com o conceito de 2015 inteiramente revisto.

A Peugeot escutou as queixas dos pilotos e corrigiu os pontos fracos do carro. O motor Diesel V6 twin turbo de 3.0 litros passou a disponibilizar uma entrega de potência mais cheia em baixas rotações, aumentando de forma considerável a capacidade de tração.

Por sua vez, o chassis de 2016 era mais baixo e mais largo, o que reforçava a estabilidade perante o modelo de 2015. A aerodinâmica foi igualmente revista por completo, enquanto a nova carroçaria permitia ângulos de ataque ainda melhores perante os obstáculos. A suspensão também não foi esquecida: foi redesenhada do zero, procurando distribuir melhor o peso pelos dois eixos e tornar a condução do 2008 DKR menos exigente.

No que toca aos pilotos, o trio maravilhoso ganhou um novo elemento: Sébastien Loeb, 9x Campeão do Mundo de ralis. O lendário piloto francês atacou o Dakar desde o início, até perceber que, para vencer o Dakar, é necessário primeiro chegar ao fim.

Devido ao acidente de Loeb, a vitória sorriu à “raposa velha” Stéphane Peterhansel, que conquistou o Dakar com uma confortável vantagem de 34 minutos. Tudo isto após um começo muito cauteloso de Peterhansel, em claro contraste com o ímpeto de Loeb. A Peugeot estava de regresso e em grande!

2017: Um passeio no deserto

Claro que 2017 não foi um passeio no deserto. Minto, afinal foi mesmo… a Peugeot fez o pleno, colocando três carros nos três primeiros lugares.

Até podia escrever que foi uma vitória “suada” mas também não foi… pela primeira vez na história do Dakar, a Peugeot equipou os seus carros com ar-condicionado.

Em 2017, o carro também adotou uma nova designação: deixou de ser Peugeot 2008 DKR para se chamar Peugeot 3008 DKR, numa referência ao SUV da marca. Naturalmente, os dois modelos são tão parecidos como o Dr. Jorge Sampaio, antigo Presidente da República, e Sara Sampaio, um dos “anjos” da Victoria’s Secret - o equivalente à Pininfarina da roupa interior feminina. Ou seja, partilham o nome e pouco mais.

Além disso, devido às alterações introduzidas no regulamento do Dakar em 2017, a Peugeot modificou o motor para reduzir os efeitos negativos da restrição na admissão aplicada aos carros de duas rodas motrizes. Apesar das mudanças regulamentares, o domínio esmagador da Peugeot sobre a concorrência manteve-se - mesmo com a perda de potência e a chegada do ar-condicionado.

O Dakar 2017 proporcionou ainda uma bela reedição da batalha interna da Peugeot Sport em 1989 - lembram-se? -, desta vez protagonizada por Peterhansel e Loeb. A vitória acabou por ser de Peterhansel. E, desta vez, não existiram ordens de equipa nem «moeda ao ar» - pelo menos segundo a versão oficial dos acontecimentos.

2018: a última volta, rapazes

Como referi no início do artigo, 2018 será o último ano da Peugeot no Dakar. A derradeira volta para a «equipa maravilha»: Peterhansel, Loeb, Sainz e Cyril Despres.

O Dakar 2018 não será uma edição tão simples como a anterior. Os regulamentos voltaram a “apertar” e deram maior liberdade técnica aos carros de tração integral para equilibrar a competitividade - concretamente, mais potência, menos peso e maior curso de suspensão. O sonho molhado de qualquer engenheiro.

Por seu lado, os carros de tração traseira receberam maior largura de vias. A Peugeot voltou a trabalhar nas suspensões, e Sébastien Loeb já declarou à imprensa que o novo Peugeot 3008 DKR 2018 “é mais estável e fácil de pilotar”. Pouco tempo depois de o dizer à imprensa, capotou! A sério…

Depois de amanhã, começa o Dakar 2018. E, como disse um dia Sir Jack Brabham, “when the flag drops, the bullshit stops!”. Veremos quem leva a melhor e se a Peugeot consegue repetir a despedida de 1990. Não será fácil, mas não apostem contra os franceses…

A Peugeot conseguiu despedir-se vitoriosa do Dakar de 2018?

Neste momento

Miguel Ângelo Figueiredo

Miguel Ângelo Figueiredo é treinador certificado de padel e consultor de gestão desportiva, com mais de uma década de experiência na organização de academias, torneios e experiências premium em clubes. Apaixonado pela evolução técnica dos jogadores e pela vertente social do padel, partilha no PadelTennisLounge conteúdos sobre treino, equipamento, bem-estar e a cultura lounge associada à modalidade.

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