Os medicamentos GLP-1, como o Ozempic e o Mounjaro, têm sido considerados alguns dos avanços farmacológicos mais relevantes de sempre.
Consequentemente, a procura mundial por estes fármacos disparou, tanto entre pessoas com indicação clínica - como quem tem diabetes tipo 2 - como entre aquelas que pretendem utilizá-los para emagrecer.
Tal como acontece com muitos produtos procurados e eficazes, esta popularidade deu origem à publicidade e venda de vários artigos que afirmam funcionar como o GLP-1, incluindo uma vaga de «suplementos de GLP-1».
No entanto, apesar das promessas feitas por estes suplementos, não têm qualquer semelhança com o Ozempic e o Wegovy. Os eventuais benefícios serão reduzidos e os efeitos secundários associados provavelmente não justificam o interesse.
Medicamentos GLP-1
O Ozempic e o Wegovy são agonistas dos recetores do péptido semelhante ao glucagon 1 (GLP-1). Imitam a hormona natural péptido semelhante ao glucagon 1, produzida no intestino em resposta à ingestão de alimentos.
O GLP-1 é uma hormona incretina. As incretinas desempenham um papel importante na regulação da velocidade de digestão dos alimentos. Também favorecem a libertação de hormonas, incluindo a insulina, que permitem ao organismo aproveitar de forma mais eficiente os nutrientes dos alimentos que ingerimos, como a glicose.
O GLP-1 produzido pelo próprio organismo permanece ativo apenas durante alguns minutos após ser libertado, enquanto as versões sintéticas em medicamento têm uma duração de cerca de uma semana.
Os medicamentos GLP-1 foram desenvolvidos inicialmente para tratar a diabetes tipo 2. Mais recentemente, foram aprovados para a gestão do peso em pessoas com excesso de peso ou obesidade. Ao atrasarem o esvaziamento do estômago, os medicamentos GLP-1 fazem com que os utilizadores se sintam saciados durante mais tempo. Diminuem igualmente os sinais cerebrais que regulam o apetite, razão pela qual são tão eficazes na gestão do peso.
Perante a popularidade dos medicamentos GLP-1, começaram a ser comercializados vários suplementos apresentados como um apoio ao GLP-1 ou até como um substituto deste. Muitos incluem nutrientes e extratos vegetais que, segundo os fabricantes, podem retardar o esvaziamento intestinal e a decomposição dos nutrientes, tal como os medicamentos GLP-1.
Vejamos os ingredientes presentes em alguns destes suplementos.
Casca de psílio
A casca de psílio é um tipo de fibra alimentar obtida a partir de uma planta herbácea nativa do sul da Europa e da Ásia.
O psílio é utilizado clinicamente como laxante no tratamento da obstipação. Também lhe têm sido atribuídos efeitos na gestão do peso, mas atualmente não existem provas suficientes desse efeito para que os produtos possam invocá-lo como alegação de saúde na Europa. Assim, não pode ser legalmente comercializado para perda de peso na Europa nem no Reino Unido.
Os estudos que analisaram o efeito da casca de psílio em indicadores de saúde, incluindo o perímetro da cintura e os níveis de gorduras no sangue, não identificaram benefícios significativos.
Além de não exercer um efeito significativo no peso, a casca de psílio, por ser um laxante, pode causar efeitos secundários, incluindo diarreia e flatulência.
Extrato de chá verde
Há décadas que o extrato de chá verde é promovido como suplemento para emagrecer.
Contudo, uma análise dos dados disponíveis sobre o extrato de chá verde, realizada por mim e pelos meus colegas, indicou que, embora alguns estudos possam ter encontrado benefícios, incluindo perda de peso, esses resultados poderão ter sido influenciados pelos métodos utilizados. Estes podem fazer com que alterações sem significado pareçam relevantes por mero acaso.
Além disso, foram registados casos que associam os extratos de chá verde a lesões e até insuficiência hepática. Caso seja utilizado, deve ser tomado apenas nas doses recomendadas. É igualmente importante ter em conta as potenciais interações com outros suplementos e medicamentos, incluindo aspirina e cafeína, pois pode aumentar o risco de efeitos secundários, como hemorragias.
Berberina
A berberina é um extrato herbal popular obtido a partir da bérberis-indiana. Tem uma longa tradição de utilização na medicina ayurvédica e, por vezes, é empregue como alternativa herbal para tratar a diabetes tipo 2, apesar de a evidência dos seus benefícios ser limitada.
A investigação sugere que a berberina pode induzir a secreção de GLP-1 em ambiente laboratorial, mas os benefícios para a saúde humana são menos claros. Por isso, a berberina poderá ter algum efeito, embora este se limite a aumentar os níveis naturais de GLP-1, que continuam a durar apenas alguns minutos.
A berberina também pode provocar efeitos secundários, como desconforto gástrico e diarreia.
Taurina
Um suplemento de GLP-1 talvez inesperado é a taurina, um aminoácido presente em marisco, produtos lácteos e carne, além de ser adicionada a muitas bebidas energéticas.
A taurina foi metabolicamente associada à ação do GLP-1: estudos verificaram que os níveis de taurina são mais baixos em pessoas com níveis reduzidos de GLP-1. Em estudos com ratinhos, demonstrou-se que as moléculas de taurina podem elevar os níveis de GLP-1 e melhorar o metabolismo da glicose. Porém, até agora, a investigação em humanos indica que a taurina tem apenas um benefício limitado na diabetes e na gestão do peso, pelo que são necessários mais estudos.
Qualquer efeito da taurina será muito reduzido, pois apenas consegue aumentar o GLP-1 naturalmente presente no organismo, cujo pico dura pouco tempo.
Crómio
O crómio é um mineral micronutriente essencial para o metabolismo da glicose. Alguns cientistas defendem mesmo a sua utilização como suplemento para ajudar a controlar a diabetes.
No entanto, embora a investigação indique que os suplementos de crómio podem contribuir para a gestão do peso e para o controlo da diabetes tipo 2, este efeito foi observado sobretudo em pessoas com níveis baixos de crómio.
Apesar de existirem muitos suplementos que alegam imitar o GLP-1, nenhum se aproxima da eficácia dos medicamentos agonistas dos recetores GLP-1. Importa ainda salientar que a evidência de que alguns destes suplementos possam aumentar temporariamente o GLP-1 é limitada. Portanto, não só há poucas provas de que possam ajudar na gestão do peso, como muitos apresentam potenciais efeitos secundários, alguns dos quais podem ser bastante graves.
Estes suplementos não devem ser usados como atalho ou solução rápida para emagrecer. A melhor forma de melhorar a saúde passa por combinar uma alimentação saudável com maior atividade física, medidas que aumentam naturalmente o GLP-1.
Duane Mellor, Académico Visitante, Aston Medical School, Universidade de Aston
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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