O maior trunfo da Fórmula 1 não é a série da Netflix nem o filme que está para chegar. Nem sequer é a colecção áudio das melhores mensagens de rádio de equipa de Kimi Raikkonen, que certamente alimentará mais um século de criação de memes. É a sua herança: 75 anos de história, máquinas icónicas, heróis imortais e demonstrações de coragem inimaginável. Por isso, é estranho que o simcade independente Formula Legends seja uma espécie de excepção ao reunir as várias eras históricas da modalidade numa só experiência.
Quando vimos pela primeira vez o trailer de apresentação e percebemos o conceito - uma abordagem acessível e estilizada em desenho animado às corridas em circuito, com interpretações não licenciadas de monolugares de F1 desde os anos 1960 até à actualidade - ficámos bastante entusiasmados. Depois de analisarmos o jogo mais a fundo, agora com uma demonstração jogável disponível na Steam desde 6 de Junho, esse entusiasmo está verdadeiramente a crescer.
Formula Legends recria diferentes eras da Fórmula 1
O primeiro aspecto que se destaca nas corridas é a qualidade dos adversários controlados pela IA. Disputam espaço entre si nas zonas de travagem e adoptam trajectórias diferentes nas curvas, algo que não deveria ser raro num género moderno, mas que, por algum motivo, é.
Francesco Bruschi, fundador da 3D Clouds, explica: “Não temos uma IA que aprende. É muito simples, mas está muito afinada para transmitir ao jogador a sensação de estar numa corrida a sério. O que viram é a nossa primeira abordagem a isso, ainda não chegámos ao fim. Quero uma corrida limpa, talvez com alguns erros [da IA] e estratégias diferentes. A minha primeira prioridade é levar a minha experiência nas corridas para o nosso desenvolvimento.”
E esse poderá ser o ingrediente secreto que permite a Formula Legends destacar-se: não se trata de um estúdio a tentar adivinhar o que a comunidade poderá querer de um jogo deste tipo. São elementos dessa mesma comunidade a criar o jogo que desejam jogar.
Pode parecer um título simpático e acessível, mas são as suas camadas menos visíveis - como o desgaste dos pneus e as estratégias de paragem nas boxes - que o elevam. Estes elementos chegaram ao jogo porque Bruschi modifica jogos de corridas desde os tempos do venerável Grand Prix 2, de Geoff Crammond, em 1996. É também antigo piloto, tendo competido, entre outras distinções, contra Sebastian Vettel na Formula Renault.
Carros, pilotos e física para cada época
Em termos de estrutura, funciona como seria de esperar. O modo carreira leva o jogador das armadilhas mortais em forma de charuto dos anos 1960 até às máquinas modernas de recuperação de energia, todas sem licença oficial, mas imediatamente reconhecíveis. Existem mais de 100 veículos diferentes a abranger essas temporadas, com decorações que remetem de forma evidente para os seus equivalentes reais. O mesmo acontece com os pilotos: os nomes têm as letras trocadas, à maneira dos jogos de corridas para consolas do início dos anos 90, mas continuam a ser fáceis de identificar.
Cada era de veículos tem um comportamento de condução próprio e assenta num modelo de física diferente. Os carros mais antigos deslizam nas curvas e levam o cérebro a projectar rapidamente uma retrospectiva da vida antes de os pneus voltarem a encontrar aderência. Já os monolugares modernos de efeito de solo reflectem a maior carga aerodinâmica e a velocidade de entrada em curva.
As diferenças sonoras entre os períodos históricos também se fazem notar. Os turbos soam mesmo a turbos, com o mesmo rugido musical que acompanhou tantos duelos entre Prost e Senna. Pormenores como este contribuíram para a recepção calorosa de Formula Legends quando foi revelado, uma reacção que confirmou aquilo que a equipa de Bruschi suspeitava: existe uma lacuna no género precisamente para esta experiência.
“Há cerca de um ano estávamos a pensar em Art of Rally”, afirma o produtor Francesco Mantovani, “que é, neste momento, a nossa principal referência.
“Teve uma grande resposta do mercado e perguntámo-nos porque é que ninguém tinha criado este tipo de jogo sobre o universo da F1. Começámos a trabalhar nele, tivemos algumas dúvidas pelo caminho, mas, quando vimos o primeiro protótipo, percebemos que havia ali algo enorme.”
A reacção positiva à revelação também incentivou a 3DClouds e reforçou a motivação da equipa para criar uma demonstração jogável antes do lançamento.
“Quando partilhámos o trailer”, diz Bruschi, “eu sabia que tínhamos algo bom entre mãos. Gerámos todo o tipo de elogios e discussões, toda a gente estava a desfrutar deste jogo. Vamos partilhar algo novo no próximo mês e também a demonstração.”
Naturalmente, a experiência prática será decisiva para o sucesso ou fracasso de Formula Legends, mas, tendo em conta a experiência da equipa dentro e fora de pista, tem melhores hipóteses do que a maioria.






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