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Júlio Mamute vai correr a maratona na Grande Muralha da China

Homem suado com roupa de desporto descansa na Muralha da China ao pôr do sol segurando uma folha de papel.
Neste artigo
  1. Júlio Mamute e o início da transformação
  2. A natação e a partilha do percurso
  3. Correu 15 quilómetros na São Silvestre
  4. «Ter escolhido a Muralha da China é uma coisa muito afetiva»

O brasileiro Júlio Mamute, que chegou aos 310 quilos e quase não conseguia levantar-se da cama, vai cumprir no domingo o sonho do pai ao participar numa maratona de 42,195 quilómetros na Grande Muralha da China.

Natural do Recife, no estado de Pernambuco, Júlio tem 36 anos e perdeu cerca de 120 quilos sem cirurgia nem medicamentos. Depois de passar anos dominado pela compulsão alimentar, pesa agora aproximadamente 190 quilos e participa em provas desportivas por todo o mundo.

Júlio Mamute e o início da transformação

Durante a pandemia de covid-19, isolou-se em casa e chegou a ter dificuldade em executar tarefas básicas. «Em dois anos e meio, engordei cerca de 120 quilos», contou à agência Lusa, em Pequim, ao recordar esse período.

«Tomar banho era uma das coisas mais desafiantes da vida. Porque, quando se é muito grande, acha-se que se vai cair», recordou. «Saía do banho suado. Saía do banho já a querer deitar-me. Isso é vida? Claro que não é.»

A mudança começou depois de um episódio que ainda hoje o comove.

No dia do seu aniversário, a 13 de novembro, nasceu-lhe um sobrinho, exatamente à mesma hora a que o próprio Júlio tinha nascido. Numa fase em que começava a perder a esperança de constituir família, viu nessa coincidência um sinal divino.

Alguns dias mais tarde, procurou visitar o recém-nascido para lhe levar um presente, mas não conseguiu sair do carro. «Fui dominado por um sentimento de impotência. Senti-me um lixo», disse.

«De que valeu a pena, então, até aqui, a vida toda? Ter empreendido, ter viajado, ter trabalhado, ter-me esforçado para ter alguma coisinha, de que valeu a pena?», questionou.

Foi nesse dia que decidiu inscrever-se em aulas de hidroginástica.

A natação e a partilha do percurso

A experiência acabou por levá-lo à natação, que considera ter sido determinante para voltar a ganhar mobilidade e começar a perder peso. «A natação salvou a minha vida», afirmou.

Chegou a passar mais de duas horas por dia a nadar, em duas sessões. A atividade também lhe permitia manter-se afastado das distrações e dos hábitos alimentares que tentava deixar para trás.

«Ali não tinha como pegar no telemóvel. Ali não tinha como estar a pedir comida», explicou.

Pouco depois de começar a transformação, morreu-lhe o pai e, um mês depois, perdeu um tio de quem era próximo.

Por recear regressar aos velhos hábitos, começou a contar o seu percurso nas redes sociais, onde se tornou conhecido.

O primeiro vídeo a tornar-se viral mostrava as dificuldades que encontrou numa viagem de avião, quando outros passageiros não queriam sentar-se ao seu lado.

«Passei a documentar tudo o que me acontecesse. Se tiver de chorar, vou chorar. Se tiver de sorrir, vou sorrir», explicou.

Correu 15 quilómetros na São Silvestre

A corrida entrou na sua vida quase por acaso. Numa visita à secretaria municipal dos Desportos de São Paulo, foi desafiado a participar na tradicional São Silvestre, que se realiza no último dia do ano.

Pesava então cerca de 220 quilos e, em treino, nunca tinha ultrapassado os seis quilómetros.

Ao chegar ao sétimo quilómetro da prova, esteve perto de desistir.

«Deitei-me no chão», recordou. Foi nessa altura que, através de uma transmissão em direto nas redes sociais, recebeu um vídeo da irmã e do sobrinho a encorajá-lo a prosseguir.

«Posso chegar amanhã. Posso chegar a arrastar-me. Mas esta criança vai ter um exemplo, pelo menos, de que vale a pena começar e terminar», afirmou.

Júlio acabou por concluir os cerca de 15 quilómetros da São Silvestre e, desde então, já participou em provas em países como Portugal, Argentina e Uruguai.

A deslocação à China, porém, tem para si um significado especial.

«Ter escolhido a Muralha da China é uma coisa muito afetiva»

O pai, que nasceu no interior de Pernambuco, tinha uma paixão pela geografia e sonhava viajar pelo mundo, em particular conhecer a China e a Austrália.

«Ele foi esse pai que ensina bandeiras, capitais, todos os países à criancinha. Sempre que havia uma reportagem na China, assistia e chamava-me para assistir», acrescentou.

Júlio chegou a prometer-lhe que um dia viajariam juntos, mas o pai morreu pouco depois de o filho ter começado a emagrecer.

«Para mim, ter escolhido aqui a Muralha da China é uma coisa muito afetiva», afirmou.

«É um momento em que vou subir a muralha. Nem sei o tamanho do desafio que me enfrenta. Confesso isso. Estou apenas a ir», acrescentou.

A mudança tem ainda uma dimensão solidária: Júlio associa a perda de peso à oferta de alimentos e diz já ter distribuído mais de duas toneladas, nomeadamente em Angola, Cabo Verde e no Brasil.

Segue-se Barcelona, onde quer participar numa corrida ligada aos bombeiros locais e organizar outra doação.

O objetivo final é, porém, mais ambicioso: perder cerca de 220 quilos em relação ao peso máximo e concluir a maratona de Atenas, na Grécia, ligada às origens históricas da modalidade.

«Não vou desistir até chegar, até alcançar isso», garantiu.

Questionado sobre o que diria hoje ao homem que esteve praticamente confinado a um quarto escuro, respondeu: «Vale a pena. Vai doer, mas vale a pena».

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Miguel Ângelo Figueiredo

Miguel Ângelo Figueiredo é treinador certificado de padel e consultor de gestão desportiva, com mais de uma década de experiência na organização de academias, torneios e experiências premium em clubes. Apaixonado pela evolução técnica dos jogadores e pela vertente social do padel, partilha no PadelTennisLounge conteúdos sobre treino, equipamento, bem-estar e a cultura lounge associada à modalidade.

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