Saltar para o conteúdo
Notícias

Conduzi a Renault 4L que terminou o rali mais difícil do mundo

Veículo Renault Safari 4L branco robusto, focado na frente, em ambiente interior moderno.
Neste artigo
  1. À prova de tudo
  2. Renault 4L quase de origem
  3. Chegou a minha vez
  4. Uma divertida Renault 4L em terra
  5. Mas depois veio o mestre
  6. E agora, o que se segue?

Como reagir a um convite para conduzir uma das duas Renault 4L que participaram - e chegaram ao fim - do rali mais exigente do mundo? Com um «SIM» imediato e sem hesitações. Foi exatamente assim que respondi.

A Renault Portugal reuniu um grupo de jornalistas especializados no Gravel Test Center, em Leiria, para conhecer e conduzir estas duas 4L, além de ouvir os protagonistas desta aventura.

A ideia desta «loucura» nasceu de António Pinto dos Santos, que já conta com várias participações em provas do WRC ao volante da Renault 4L decorada com as «cores» do xisto da Aldeia Histórica do Piódão.

Mais tarde, foi lançado o desafio a outro nome incontornável do automobilismo português: Pedro Matos Chaves, bicampeão nacional de ralis e antigo piloto de Fórmula 1. Aceitou assumir o volante da segunda 4L, conhecida como Zebra por razões evidentes.

O momento foi particularmente adequado, pois esta aventura também assinalou os 60 anos deste modelo icónico que, tantas décadas depois, permanece o Renault mais vendido de sempre.

À prova de tudo

Antes de explicar como foi guiar uma Renault 4L tão fora do comum, vale a pena recordar o desafio que as trouxe até este ponto. No Quénia, em África, as duas 4L «tugas» cumpriram quase 5000 quilómetros por alguns dos troços mais duros do planeta.

Disputado desde 2003, o “East African Safari Classic Rally” é o maior e mais exigente rali de automóveis clássicos do mundo, sendo igualmente um dos mais prestigiados da modalidade. A edição deste ano contou, por exemplo, com Ken Block ao volante de um Porsche 911.

Ainda assim, foram as equipas formadas por Pedro Matos Chaves/Marco Barbosa e António Pinto dos Santos/Nuno Rodrigues da Silva, acompanhadas pelas duas 4L portuguesas, que despertaram maior curiosidade. Parecia haver pouca gente convencida de que ambas conseguiriam chegar à meta.

Segundo Pedro Matos Chaves e António Pinto dos Santos, cada chegada ao parque fechado no final das etapas era celebrada como uma festa. Pouco a pouco, toda a “caravana” do “East African Safari Classic Rally” passou a apoiar o ícone francês.

Renault 4L quase de origem

Independentemente da perspetiva escolhida para analisar o que a “Team Renault 4L 60th Anniversary - Portugal” alcançou, a conclusão é sempre idêntica: foi algo impressionante e dificilmente repetível. O feito torna-se ainda mais notável quando se percebe que as duas 4L utilizadas estavam quase totalmente de série.

O modesto motor de 34 cv manteve-se inalterado, tal como a caixa manual de quatro velocidades, com a habitual alavanca instalada no tabliê. O volante também é o original e, em cada curva, faz-nos lembrar que não existe qualquer assistência: apenas a força dos braços.

As alterações incidiram sobretudo na segurança e na proteção dos componentes mecânicos: resguardos dianteiros e de cárter, bancos de competição e gaiola de segurança. Há ainda faróis auxiliares na frente, snorkel e pneus cardados.

Os pneus foram, aliás, uma das maiores dificuldades de toda a aventura. Como recordou Pinto dos Santos, não é possível encontrar pneus off-road novos na medida da 4L, equipada com jantes de 13”. “Só conseguimos arranjar pneus recauchutados”, disse-nos o piloto da 4L número 69.

Também a suspensão criou obstáculos. A equipa começou por instalar amortecedores de competição, mas depressa percebeu que estes partiam com frequência. A solução passou por voltar a montar os amortecedores de série nas 4L.

Todos estes pormenores reforçam a ideia de que estamos perante um automóvel quase indestrutível. Para os mais desconfiados, há outro dado capaz de dissipar qualquer dúvida: as duas 4L chegaram a Leiria praticamente no mesmo estado em que saíram do contentor vindo de África.

A aventura pelas pistas africanas terminou em meados de fevereiro, mas os carros só chegaram a Portugal de barco no início de junho. “Quando as fomos buscar ao contentor demos à chave e elas funcionaram logo”, confessou Pedro Matos Chaves, também ele surpreendido.

A robustez da 4L não deixou de impressionar o antigo piloto de Fórmula 1. Recordou que os carros atravessaram zonas de “areia e fesh fesh (mais fino do que a areia normal, quase como se fosse uma espécie de pó)”, nas quais “qualquer automóvel convencional teria ficado atolado e sufocado”. E a sua 4L conseguiu ainda “fazer 88 km com um amortecedor partido”.

Chegou a minha vez

Ouvir Pedro Matos Chaves e António Pinto dos Santos relatarem a experiência deste rali, bem como ver as extraordinárias imagens pessoais que me mostraram - uma delas, captada dentro da 4L, revelava um enorme elefante a ocupar parte da estrada por onde a prova deveria passar - transportou-me de imediato para as pistas africanas. Era inevitável imaginar como seria participar numa aventura tão louca.

Provavelmente, nunca terei essa oportunidade, mas faltavam apenas alguns minutos para testar uma destas máquinas num percurso igualmente interessante. E aproveito para abrir um parêntesis: depois das 4L, o Gravel Test Center, em Leiria, foi a segunda maior surpresa do dia.

Coube-me a Renault 4L número 68, precisamente aquela que Pedro Matos Chaves conduziu. Ao meu lado seguia Marco Barbosa, a avisar-me das curvas mais apertadas e a lembrar-me de que não precisava de tratar a Zebra com tanto cuidado. E a experiência foi espetacular.

A entrada no habitáculo não é simples, já que o espaço é reduzido, em grande parte devido à roll bar exigida pela FIA. Apertar os cintos de competição também requer algum esforço. Mas, ultrapassada essa fase, a sensação é exatamente a de uma 4L «normal»: basta acelerar e seguir em frente, sem receios.

Uma divertida Renault 4L em terra

Já tinha conduzido uma Renault 4L em estrada - podem ver, ou voltar a ver, o vídeo abaixo - e conhecia bem a inclinação característica deste tipo de automóveis.

No piso de terra, porém, esse comportamento pode ser usado a nosso favor. Rapidamente se percebe que a forma mais eficaz de controlar esta 4L passa pelo acelerador e por «jogar» com as transferências de massa em curva.

É escusado dizer que todas as sensações parecem ampliadas: mesmo a 60 km/h, a perceção é de uma velocidade muito superior. Na competição, as velocidades raramente ultrapassaram muito este valor, dada a dureza do terreno e a necessidade de preservar ao máximo a mecânica.

O motor nunca revelou hesitações, desde que se explorasse devidamente a caixa de velocidades, nem houve falta de tração. Bastava orientar corretamente as rodas dianteiras e evitar, tanto quanto possível, as valas mais profundas. A 4L encarregava-se do restante, fazendo-me parecer bem mais competente na «fotografia» do que esperava.

Mas depois veio o mestre

Convenci-me de que tinha guiado a 4L de forma razoável até chegar a altura de seguir como passageiro com António Pinto dos Santos. O piloto participou em 11 ralis do Campeonato do Mundo, entre 1992 e 2000, e terminou todos, como fez questão de recordar com orgulho: “acabei todas os ralis que fiz. Nunca abandonei”.

Natural de Coimbra, Pinto dos Santos conhece a sua 4L melhor do que ninguém, algo que ficou plenamente demonstrado nesta passagem. Fala-se muitas vezes da ligação entre homem e máquina, mas poucas vezes essa expressão pareceu tão apropriada: esta 4L é verdadeiramente uma extensão de Pinto dos Santos.

E agora, o que se segue?

Depois de conduzir esta 4L e de escutar as histórias de Pinto dos Santos e Pedro Matos Chaves, uma pergunta não me saía da cabeça: “o que se faz depois de uma loucura como estas?”.

Naturalmente, não podia deixar Leiria sem colocar essa questão ao piloto da 4L número 69, que “tem 110 000 quilómetros feitos em prova”. A resposta confirmou que a participação no Dakar Classic já faz parte dos seus planos, embora apenas para 2025.

Neste momento

Miguel Ângelo Figueiredo

Miguel Ângelo Figueiredo é treinador certificado de padel e consultor de gestão desportiva, com mais de uma década de experiência na organização de academias, torneios e experiências premium em clubes. Apaixonado pela evolução técnica dos jogadores e pela vertente social do padel, partilha no PadelTennisLounge conteúdos sobre treino, equipamento, bem-estar e a cultura lounge associada à modalidade.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário