Lisboa é feita de muitas camadas. Há vestígios romanos, outros mouros e uma camada que poucos conhecem: o asfalto que, numa ocasião histórica, acolheu os melhores pilotos do mundo. Para recuperar a história deste circuito que recebeu a Fórmula 1, a categoria rainha do desporto automóvel, é preciso voltar quase 70 anos atrás.
A viagem no tempo merece, contudo, ser feita, especialmente agora que Portugal é candidato a voltar a receber a Fórmula 1 em 2027. Como ainda faltam dois anos, podemos aproveitar para recuar algumas décadas. Tempo não falta…
Era 23 de agosto de 1959. Com algum esforço, os acontecimentos desse dia resumem-se em poucas palavras: Stirling Moss ganhou o Grande Prémio de Portugal, Jack Brabham voou contra um poste de madeira e “Nicha” Cabral, o primeiro português na Fórmula 1, conquistou um honroso 10.º lugar ao volante de um Cooper - Maserati.
O cenário foi um circuito improvisado e perigoso, impossível de reproduzir segundo os critérios atuais. Situava-se em Monsanto e, muito provavelmente, já passou por aquele percurso de carro. Não a mais de 200 km/h, mas talvez a menos de 50 km/h.
O improvável circuito de Monsanto no coração da capital
Com 5,44 km de extensão, o traçado era uma manta de retalhos de vias urbanas. Partia da Estrada de Queluz, perto do então acesso à autoestrada para o Estádio Nacional, hoje a A5. Daí seguia pela Estrada do Alvito, passava pela Estrada dos Montes Claros e prosseguia pela Estrada do Penedo até à Estrada dos Marcos, antes de regressar à partida.
Uma parte do percurso utilizava o viaduto de acesso ao Estádio Nacional; noutra, os carros cruzavam vias cujos carris de elétrico ainda eram usados. O relevo também tinha influência: as subidas e descidas eram acentuadas, havia curvas com inclinação invertida, troços empedrados e bermas irregulares.
O conjunto reunia condições hoje consideradas inaceitáveis: pavimento em paralelo, ausência de escapatórias, nenhuma proteção para o público e obstáculos fixos espalhados pelo percurso. Apesar de tudo, a prova integrou o Campeonato do Mundo de Fórmula 1. Eram tempos diferentes.
Um Grande Prémio de coragem
Em Monsanto, Moss voltou a dominar, tal como tinha feito no ano anterior ao vencer o GP de Portugal na Boavista. Conquistou o primeiro lugar na grelha de partida, comandou todas as voltas, fez a volta mais rápida e cortou a meta com uma volta de avanço sobre o segundo classificado. Foi um recital ao volante de um Cooper-Climax da Rob Walker Racing.
O circuito, porém, não dava margem para erros. Jack Brabham, que nesse ano seria campeão do mundo, perdeu o controlo e embateu violentamente num poste de madeira. Foi projetado para fora do carro. Escapou sem ferimentos graves, mas a imagem tornou-se símbolo de uma época em que um erro podia custar a vida.
Circuito de Monsanto morto e enterrado
Em 1960, o GP de Portugal voltou ao Porto e Monsanto foi remetido para a história. O percurso era demasiado perigoso e tornava-se cada vez menos compatível com os padrões de segurança da F1, então em mudança.
Ainda assim, o parque continuou a acolher competições locais e nacionais até aos anos 70. Continua a ser possível percorrer a Estrada do Alvito, a Estrada de Queluz ou a Estrada dos Montes Claros sem suspeitar de que por ali passaram monolugares de Fórmula 1.
Para quem conhece o passado, aquelas vias são mais do que estradas: são um circuito fantasma, com o som dos motores ainda a ecoar entre as árvores. O mundo mudou, porém, e hoje é o Autódromo do Estoril que tem vizinhos barulhentos a queixarem-se do ruído dos motores. Em Monsanto, em 1959, sucedia o contrário: era a Fórmula 1 que rugia no meio do silêncio.
Durante um breve instante, Lisboa recebeu o grande «circo» da Fórmula 1. Como acontece com quase tudo o que dura pouco, acabou esquecido. Ou enterrado. O espetáculo pode regressar em 2027, naturalmente não a Monsanto, mas ao Autódromo Internacional do Algarve. Felizmente, os tempos são outros.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário