Não se parece com o uivo sibilante que se ouve nos Alpes. É antes um murmúrio grave, algures entre uma oração e um aviso. Lá em baixo, no vale, arde uma pilha de zimbro, e o fumo sobe devagar em direção a um imenso colosso branco que domina o horizonte. Gangkhar Puensum. 7.570 metros de altitude. Imaculado, intocado, quase insolentemente silencioso. Um velho monge ergue os olhos e junta as mãos, como se falasse com um amigo de longa data. Ao seu lado, um jovem guia de trekking percorre no telemóvel imagens do campo-base do Evereste: ruído, cores, autorretratos. Depois volta a olhar para o gigante branco que nunca conheceu uma investida ao cume. Pelo menos, até agora.
O pico mais alto do mundo por escalar e o estranho silêncio de Gangkhar Puensum
Quando pensamos em grandes montanhas, costumam surgir imagens de filas de casacos de penas, tendas coloridas, garrafas de oxigénio e fotografias triunfais junto à cruz do cume. No Gangkhar Puensum, a paisagem é outra. Não há cruz, rasto ou placa metálica com nomes. Apenas branco. Apenas silêncio. E uma forma peculiar de respeito, quase física, que se sente quando se conhece a sua história.
A montanha só apareceu nos mapas em 1922 e, durante muito tempo, ninguém soube ao certo qual era a sua altitude. Ainda hoje, há mapas que divergem em centenas de metros. Uma montanha que resiste a uma medição exata: uma imagem que combina, de forma quase inquietante, com a sua reputação.
Na década de 1980, houve quatro tentativas sérias, algumas por equipas japonesas e britânicas muito experientes. Tinham formação de excelência, equipamento moderno e experiência em montanhas de oito mil metros. Ainda assim, nenhuma chegou ao cume. Pouco depois, o Butão começou a impor, por etapas, uma proibição de ascensão às montanhas sagradas: primeiro acima dos 2.438,4 metros, depois dos 6.000 metros e, por fim, uma «proibição permanente de chegar ao cume» do Gangkhar Puensum. A montanha continuou a ser o que sempre fora: um ponto de interrogação branco na extremidade do mundo.
A realidade, vista sem romantismo, é que a ascensão seria provavelmente possível do ponto de vista técnico. Não seria fácil, mas seria possível. Há vertentes íngremes, fendas escondidas e subidas longas. Ainda assim, comparado com o K2 ou o Annapurna, o seu perfil parece quase modesto. Aquilo que mantém o Gangkhar Puensum intocado tem menos a ver com o gelo do que com as ideias, as leis e os mitos: uma combinação de espiritualidade, política e um receio surpreendentemente pragmático de violar um tabu cultural.
Montanhas sagradas e regras rigorosas: porque diz o Butão «não»?
O Butão segue um caminho diferente do de muitos outros países dos Himalaias. Enquanto o Nepal ou o Tibete veem no turismo de montanha uma fonte de receitas, o Butão opta deliberadamente por limitar o número de visitantes. Chamam-lhe «alto valor, baixo volume»: preferem menos visitantes, mas que conheçam o país com maior profundidade. Neste contexto, o Gangkhar Puensum torna-se uma prova decisiva: será uma montanha um instrumento desportivo ou um santuário?
Para muitos butaneses, o cume não é uma simples extensão de rocha vazia. As suas histórias colocam ali divindades protetoras, espíritos dos antepassados e forças que não devem ser perturbadas por crampons e logótipos de patrocinadores. Todos conhecemos aquele momento em que um limite não se explica pela lógica, mas se impõe com clareza interior: «Não passamos daqui.» No caso do Gangkhar Puensum, esse limite interior tornou-se uma fronteira oficial do Estado.
Em 1994, o Butão proibiu o montanhismo acima dos 6.000 metros. Em 2003, seguiu-se o encerramento definitivo a expedições estrangeiras de todos os cumes considerados sagrados, incluindo o Gangkhar Puensum. Não se trata de uma manobra de relações públicas, mas de uma escolha consciente contra um mercado de milhares de milhões. Sejamos francos: nenhum outro país pequeno com montanhas como estas rejeitaria esse dinheiro com tanta determinação. É precisamente isso que torna esta história tão desconcertante e tão fascinante.
Um erro habitual entre observadores europeus e americanos é descartar tudo como «superstição». Contudo, a questão que está por trás é muito atual: temos mesmo de escalar, medir e transmitir em direto tudo, só porque somos capazes? No caso do Gangkhar Puensum, o Butão responde que não. E esse não tem força de lei. Mesmo que amanhã chegasse a melhor equipa profissional do mundo com um patrocínio de oito dígitos, o cume continuaria interdito. É uma afirmação coletiva de autonomia perante a lógica dos recordes e das classificações.
Entre erros nos mapas, honra e renúncia: o que os montanhistas podem aprender
Quem analisa as tentativas de expedição dos anos 1980 depressa percebe que não foi apenas a espiritualidade que deixou este cume por escalar. Até encontrar a sua posição exata foi uma tarefa caótica. Diferentes levantamentos deslocavam o ponto supostamente mais alto, e algumas expedições terão provavelmente alcançado um cume secundário sem o saber. Um pormenor absurdo, sobretudo perante a obsessão moderna com os dados de GPS.
Em 1985, uma equipa japonesa tentou a ascensão pela crista sul. Enfrentou tempestades, risco de avalanches e uma topografia que dificultava a orientação. A expedição teve de desistir pouco abaixo dos 7.000 metros. Mais tarde, outra equipa chegou a um pico do maciço, mas muito provavelmente não ao cume principal. O recorde continuou duvidoso, a comunidade discutiu-o e o Butão manteve-se em silêncio. Quanto à montanha, permaneceu ali, indiferente a todos esses debates humanos.
Para um alpinista clássico, a situação é quase cruel: um cume lógico e relativamente «limpo», tecnicamente exigente, com uma história recente e visualmente espetacular, está protegido por uma muralha invisível de leis e crenças. Muitos montanhistas confessam em privado o apelo daquela pergunta: «Como seria ser o primeiro?» Ao mesmo tempo, ganha força na comunidade outra voz, segundo a qual renunciar também pode ser uma forma de alpinismo. Um cume que se escolhe não escalar, apesar de ser possível fazê-lo, transforma-se subitamente num espelho do próprio ego.
Como falar de uma montanha proibida sem a profanar
Quem hoje olha para o Butão como viajante ou montanhista amador acaba depressa por se perguntar: como aproximar-me desta montanha sem infringir as regras nem faltar ao respeito às pessoas locais? A resposta é simples e, por isso mesmo, reconfortante: caminhar, observar e escutar. Existem percursos de trekking com vistas deslumbrantes sobre o maciço que não têm o próprio cume como destino.
Muitos guias locais preferem contar histórias sobre os espíritos das montanhas a falar de desníveis. Podemos sorrir perante essas narrativas ou levá-las a sério, como um convite a alargar a nossa perspetiva. Ali, o «sucesso» não precisa de ser medido em metros, podendo antes encontrar-se nos encontros pelo caminho. Numa noite passada na tenda, com o vento a bater na lona e, algures muito acima, esse enorme guardião invisível. Tranquilo. Atento. Não conquistado.
Quem alguma vez avançou para um cume com grande ambição conhece a visão de túnel: só importa o ponto mais alto e tudo o resto passa a cenário. No Butão, essa atitude pode depressa parecer desrespeitosa. Um erro típico dos ocidentais é chegar a pensar que «um pouco de espiritualidade» serve de bonita decoração, enquanto o verdadeiro objetivo continua a ser a emoção pessoal. Essa postura choca frontalmente com a visão butanesa, na qual a própria montanha é um ser com vontade, e não um projeto a «concluir».
«Algumas montanhas simplesmente não querem ser escaladas. E talvez precisemos precisamente dessas montanhas para nos lembrarem de que não somos o centro do universo», disse-me certa vez um alpinista com mais de dez expedições nos Himalaias.
O que podemos retirar do Gangkhar Puensum aplica-se ao quotidiano com surpreendente clareza:
- Respeitar limites que não são nossos.
- Ter a liberdade de renunciar conscientemente a um triunfo possível.
- Aceitar que nem toda a «mancha branca» no mapa precisa de ser preenchida.
- Entender o sucesso de outra forma: não como «ter estado lá em cima», mas como «ter estado presente com dignidade».
- Reconhecer, discretamente, que nem tudo tem de ser medido, publicado ou partilhado.
Um pico por escalar num mundo que tudo conhece
Vivemos numa época em que, sem sair do sofá, podemos assistir a voos de drones sobre vales remotos, acompanhar transmissões em direto do cume do Evereste e ampliar no Google Earth até à mais pequena saliência rochosa. Neste mundo, uma montanha de sete mil metros ainda por escalar parece quase um erro do sistema: uma pequena falha branca no fluxo global de dados. É precisamente por isso que o Gangkhar Puensum fica na memória de quem ouve falar dele.
Existe ali uma montanha que permanece deliberadamente por escalar. Não por ser demasiado perigosa ou demasiado alta, mas porque um país afirma em conjunto: «Aqui terminam as vossas pretensões.» E porque o mundo, com todos os seus recordes, vídeos de desafios e tabelas de desempenho, tem respeitado esse não. É uma ideia quase radicalmente moderna: a de um futuro em que não precisamos de explorar tudo até ao limite só porque a técnica o permite.
Talvez o Gangkhar Puensum seja uma espécie de teste de resistência invisível à forma como lidamos com os limites. O que sentimos ao saber que existe algo grandioso, belo e inacessível que nunca poderemos «possuir»? Alguns rejeitarão a ideia com frustração; outros sentirão uma espécie de alívio. Um consolo discreto por ainda existirem lugares fora do nosso alcance. E talvez, daqui a algumas décadas, contemOS aos nossos filhos não apenas os cumes que alcançámos, mas também a história daquele onde ninguém esteve. Por princípio.
| Ponto essencial | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Significado espiritual | O Butão considera o Gangkhar Puensum uma montanha sagrada, habitada por divindades protetoras. | Permite compreender por que razão o respeito cultural se sobrepõe à ambição desportiva. |
| Proibição legal | Os cumes altos estão permanentemente interditos a expedições, em especial neste maciço. | Explica por que motivo a montanha continua por escalar, embora seja tecnicamente acessível. |
| Símbolo de renúncia consciente | O cume por escalar contrapõe-se à mentalidade de que «tudo é possível». | Incentiva a repensar objetivos e limites pessoais, sem encarar a renúncia como fraqueza. |






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